sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Nanine, Naniné & Niâni



Nanine, Naniné ou Niâni são versões do mesmo nome usadas na literatura para exprimir uma antiga lenda guaicuru. Nanine é a forma como o nome é transcrito no manuscrito História dos Índios Cavaleiros (1975), de Rodrigues do Prado, onde a lenda é contada em prosa. No texto de Rodrigues do Prado, o nome foi transcrito como Nanine, eis o trecho:

“Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram três meses, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a notícia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esfera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno índio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de vários antecris: “És meu cativo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe”. Então seus olhos deixaram correr dilúvios de lagrimas pelas suas tristes faces, que ela envergonhada quis ocultar, mas o amor ofendido não o permitia. Parece que esta violenta contenda de duas poderosas paixões lhe motivou uma febre ardente, com a qual ao outro dia perdeu a vida”.

Niâni foi a forma usada por Machado de Assis para contar essa mesma lenda em forma de poesia. O cuidado com as notas adicionais no final do volume indica o aparato de pesquisa linguística e antropológica que fez Machado de Assis, sobretudo a respeito de costumes e da língua indígena. Após ser consultado pelo autor, Alfredo d’Escragnolle Taunay, responde qual seria o nome mais adequado para a futura heroína guaicuru das Americanas:

“Depois de nossa conversa última pensei qual podia ser o verdadeiro nome que deve ter a sua heroína Guaicuru. A tradição em que você se funda dá Naniné. Pois bem, o vocábulo legítimo e que servia de apelido a algumas mulheres guaicurus é Nianni (niãni), que quer dizer – criança fraca, débil”.

Assim, Machado de Assis coloca numa nota da primeira edição e demais publicações do seu livro “Americanas”:

Nanine é o nome transcrito na História dos Índios Cavaleiros (1975). Na língua geral temos Niâni, que Martius traduz por infans. Esta forma pareceu mais graciosa; e não duvidei adotá-la, desde que o meu distinto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, dialeto guaicuru, de que ela há feito estudos, Niâni exprime a idéia de moça franzina, delicada, não lhe parecendo que existia a forma empregada na monografia de Rodrigues Prado”.

Sendo assim, tendo como base a pesquisa desses dois autores, podemos dizer que Nanine, Naniné ou Niâni significa “criança fraca”, “criança débil”, na língua guaicuru. Lembrando que o termo guaicurus remete aos grupos indígenas cujas línguas pertencem à família linguística guaicuru. Eram famosos por serem uma tribo guerreira que se utilizavam de cavalos para as caçadas e ataques. Migraram para o território brasileiro, na região dos estados do Mato Grosso do Sul e Goiás, fugindo da colonização na região do norte do Paraguai. Por isso Rodrigues do Prado chamou seu livro de “História dos Índios Cavaleiros”. Abaixo, a transcrição do poema Niâni:



NIÂNI
(Machado de Assis)
(HISTÓRIA GUAICURU)

I
Contam-se histórias antigas
 Pelas terras de além-mar,
De moças e de princesas,
 Que amor fazia matar.
Mas amor que entranha n’alma
 E a vida soí acabar,
Amor é de todo o clima,
 Bem como a luz, como o ar.
Morrem dele nas florestas
 Aonde habita o jaguar,
Nas margens dos grandes rios
 Que levam troncos ao mar.
Agora direi um caso
 De muito penalizar,
Tão triste como os que contam
Pelas terras de além-mar.
II
Cabana que esteira cobre
 De junco trançado a mão,
Que agitação vai por ela!
 Que ledas horas lhe vão!
Panenioxe é guerreiro
 Da velha, dura nação.
Caiavaba há já sentido
 A sua lança e facão.
Vem de longe, chega à porta
 Do afamado capitão;
Deixa a lança e o cavalo,
 Entra com seu coração.
A noiva que ele lhe guarda
 Moça é de nobre feição,
Airosa como ágil corça
 Que corre pelo sertão.
Amores eram nascidos
 Naquela tenra estação
Em que a flor que há de ser flor
 Inda se fecha em botão.
Muitos agora lhe querem,
 E muitos que fortes são;
Niâni ao melhor deles [10]
 Não dera o seu coração.
Casá-los agora, é tempo;
 Casá-los, nobre ancião!
Limpo sangue tem o noivo,
 Que é filho de capitão.
III
“— Traze a minha lança, escravo,
 Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavalo
 Que largos campos correu”.
“— Lança tens e tens cavalo
 Que meu velho pai te deu;
Mas aonde te vais agora
 Onde vais, esposo meu?”
“— Vou-me à caça, junto à cova
 Onde a onça se meteu...”
“— Montada no meu cavalo
 Vou contigo, esposo meu.”
“— Vou-me às ribas do Escopil
Que a minha lança varreu...”
“— Irei pelejar na guerra,
 A teu lado, esposo meu.”
“— Fica-te aí na cabana
 Onde o meu amor nasceu.”
“— Melhor não haver nascido
 Se já de todo morreu”.
E uma lágrima, — a primeira
 De muitas que ela verteu, —
Pela face cobreada
 Lenta, lenta lhe correu.
Enxugá-la, não a enxuga
 O esposo que já perdeu,
Que ele no chão fita os olhos,
 Como que a voz lhe morreu.
Traz o escravo o seu cavalo
 Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
 Que tanto peito abateu.
Então, recobrando a alma,
 Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
 À esposa lhe respondeu:
“— A bocaiúva três vezes
 No tronco amadureceu,
Desde o dia em que o guerreiro
 Sua esposa recebeu.
Três vezes! Amor sobejo
 Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
 Fastio que me perdeu.”
E pulando no cavalo,
 Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
 Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguai as águas,
 Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
 Como usavam de descer.
Tenras flores, que outro tempo
 Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de igual vida;
 Morrem do mesmo morrer.
Niâni, pobre viúva,
Viúva sem bem o ser,
Tanta lágrima chorada
 Já te não pode valer.
Olhos que amor desmaiara
 De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
 Como que vão fenecer.
Corpo que fora robusto
 No seu cavalo a correr,
De contínua dor quebrado
 Mal se pode já suster.
Colar de prata não usa,
 Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
 Todas as veio a romper.
Que ela, se nada há mudado
 Daquele eterno viver,
Com que a natureza sabe
 Renascer, permanecer,
Toda é outra; a alma lhe morre,
 Mas de um contínuo morrer,
E não há mágoa mais triste
 De quantas podem doer.
Os que outrora a desejavam,
 Antes dela mal haver,
Vendo que chora e padece,
 Rindo se põem a dizer:
“— Remador vai na canoa,
 Canoa vai a descer...
Piranha espiou do fundo
 Piranha, que o vai comer.
Ninguém se fie da brasa
 Que os olhos vêem arder,
Sereno que cai de noite
 Há de fazê-la morrer.
Panenioxe, Panenioxe,
 Não lhe sabias querer.
Quem te pagara esse golpe
 Que lhe vieste fazer!”
V
Um dia, — era sobre tarde,
 Ia-se o sol a afundar;
Calumbi cerrava as folhas
 Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe
E à porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
 Como a noite sem luar.
Chega-se à pobre da moça
 E assim começa a falar:
“— Guaicuru dói-lhe no peito
 Tristeza de envergonhar.
Esposo que te há fugido
 Hoje se vai a casar;
Noiva não é de alto sangue,
 Porém de sangue vulgar”.
Ergue-se a moça de um pulo,
 Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faísca
 Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha
 Acerta de ali passar;
Niâni atentando nele
 Chama-o para o seu lugar.
“— Cativo és tu; serás livre,
 Mas vais o nome trocar;
Nome avesso te puseram...
 Panenioxe hás de ficar.”
Pela face cobreada
 Desce, desce com vagar
Uma lágrima: era a última
 Que lhe restava chorar.
Longo tempo ali ficara,
 Sem se mover nem falar;
Os que a vêem naquela mágoa
 Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro,
 E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
 E enegrecia-se o ar.
Pintam-na de vivas cores,
E lhe lançam um colar;
Em fina esteira de junco
 Logo a vão amortalhar.
O triste pai suspirando
 Nos braços a vai tomar,
Deita-a sobre o seu cavalo
 E a leva para enterrar.
Na terra em que dorme agora
 Justo lhe era descansar,
Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.
Que assim se morre de amores
 Aonde habita o jaguar,
Como as princesas morriam
 Pelas terras de além-mar.

Ocasionalmente, prefiro a versão Niâni. Acho Nanine demasiadamente parecido com o sobrenome Nanini (como por exemplo, do ator Marco Nanini), e Naniné também soa igualmente estranho pela repetição de silabas com a letra “N”. Niâni é interessante em vários sentidos, e inclusive, aparentemente os pais brasileiros também pensaram assim: No Nomes no Brasil, plataforma do IBGE baseada no Censo 2010, Niâni tem 31 registros (todos femininos) enquanto as outras versões não tem nenhuma.


Poderíamos supor que os 31 registros desse raro nome tenham sido inspirados na obra de Machado de Assis, e posso assegurar que ainda hoje seria uma excelente escolha, com maravilhosas conexões literárias. 





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