quinta-feira, 16 de março de 2017

A presença ínfima de nomes indígenas e africanos revela o sequestro da identidade nacional

Bonecas representam etnias
Foto: Arquivo pessoal da artista Jane Mara - Campo Grande MS



Em nome de quem



Flávia Oliveira
Geledés
06-05-2016


Dias atrás, o IBGE apresentou em divertido e utilíssimo aplicativo um levantamento com os nomes próprios mais frequentes no país. O órgão oficial de estatísticas listou 130.348 prenomes que batizam, no mínimo, duas dezenas de mulheres e homens brasileiros — menos de 20 ocorrências não foram computadas. Descortinou-se, assim, uma nada surpreendente nação de Marias e Josés, nomes de origem hebraica, mas fortemente relacionados a santos católicos. Tudo a ver com a colonização. A presença quase residual de designações de raízes indígena e africana dá a medida do sequestro de identidade promovido pelos portugueses contra povos que também construíram o Brasil.

Mais de 11 milhões de meninas e mulheres chamam-se Maria, em denominações simples ou compostas. Nenhum nome é mais popular que o da santa, mãe de Jesus Cristo, preferência nacional em todas as décadas, desde os anos 1930. Há quase seis milhões de Josés, líder absoluto até os anos 1980, mas que perdeu a primeira posição para Lucas e João, entre o fim do século XX e o início do XXI, respectivamente. Relacionam-se a figuras bíblicas todos os demais nomes que completam o rol dos dez mais: Ana, João, Antonio, Francisco, Carlos, Paulo, Pedro e Lucas. Eles batizam, ao todo, quase 35 milhões de brasileiros.

Em anos recentes, o IBGE tem observado aumento do uso de nomes estrangeiros, na esteira do sucesso de astros das artes e do esporte. É o caso de Michael (Jackson, na origem) e suas variações. Nomes de artistas brasileiros e de personagens de novela também têm seu lugar. Foi assim que Cauã, tomado emprestado do ator de sobrenome Reymond, disparou neste século. Já são mais de 85 mil homônimos, 96% nascidos a partir do ano 2000. É caso raro de nome indígena masculino popularizado. Janaína (210 mil) e Tainá (127 mil), Iracema (87 mil) e Ceci (84 mil) são os mais usados entre as mulheres.

Dos nomes relacionados à história e às tradições afro-brasileiras, Dandara, líder feminina do Quilombo de Palmares ao lado de Zumbi, é provavelmente o mais frequente, com 11 mil ocorrências. Luanda, capital angolana, soma 3.990; Vana, cerca de mil. Abdias (Nascimento, principal referência do movimento negro no século XX) batiza cinco mil brasileiros. O IBGE não registrou no site “Nomes do Brasil” (http://censo2010.ibge.gov.br/nomes/#/search ) ocorrências ou frequência superior a 20 citações a Zumbi, Zulu, Kobbi, Becca e Ngozi.

Na origem do abandono está o processo de colonização, ancorado na depreciação da cultura e das tradições africanas e indígenas pelos portugueses, como salienta o historiador Luiz Antonio Simas: “Há um racismo duplo, que é escancarado no corpo, marcado na pele, e também inscrito no campo do simbólico. Esse racismo simbólico deprecia os saberes das vítimas do racismo como inferiores e, ao mesmo tempo, opera no apagamento da história das pessoas. A questão do nome é emblemática”. 

Em 2013, o portal Geledés Instituto da Mulher Negra publicou uma extensa lista de nomes masculinos e femininos de origem africana para, nas palavras da coordenadora-executiva Sueli Carneiro, “ajudar a resgatar a negritude do povo”. Não é tarefa simples. Ela própria e o então marido, 36 anos atrás, tiveram dificuldade para batizar a filha de Luanda, em referência à independência do país, em 1975. O escrivão alegava que o nome era “desconhecido, esquisito”.

Em fins de março deste ano, o casal Cizinho Afreeka e Jéssica Juliana denunciou a resistência do Cartório do 2º Distrito de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, em registrar a filha deles. Alegavam que o nome escolhido, Makeda Foluke (a grandiosa aos cuidados de Deus), poderia causar vexame à criança no futuro. O Ministério Público do Rio também deu parecer contrário (Makeda soaria como “queda ruim”) e sugeriu uso de um prenome coloquial seguido do africano, algo como Ana Maria Makeda.

“Há um desestímulo ao uso de nomes africanos. As próprias autoridades usam todo tipo de artifício contrário, da dificuldade de pronúncia aos apelidos e comentários agressivos. A tentativa de negação da negritude se manifesta em todas as direções. Ocorreu no passado e acontece hoje. Pôr um nome africano num filho é produto da resistência, é resgate de um patrimônio que nos foi sonegado, expropriado”, completa Sueli Carneiro. 

Nas estatísticas do IBGE, 53% dos brasileiros se declaram pretos ou pardos. Mas a ascendência africana não se expressa nem nos nomes nem nos sobrenomes da população, como lembra o professor Hélio Santos, presidente do conselho deliberativo do Fundo Baobá para Equidade Racial:

“Houve uma rapinagem, um roubo de identidade dos povos negros e indígenas. Nossas raízes não são visíveis em nossos nomes. A influência portuguesa é acachapante por imposição do colonizador. O resgate, importantíssimo, está em curso, mas ainda é residual”.

Que venha.




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